O Setembro Amarelo é uma campanha fundamental para a conscientização e prevenção do suicídio, e sua relevância no mundo do trabalho é cada vez mais reconhecida. Este mês tem como objetivo romper o silêncio em torno do suicídio, promovendo diálogos abertos sobre saúde mental e incentivando a busca por ajuda.

Embora o foco não se destine especificamente aos trabalhadores, o ambiente de trabalho ganha especial importância devido ao impacto significativo que a organização do trabalho pode ter na saúde mental.

O estresse, a pressão por resultados, jornadas excessivas e a falta de reconhecimento são fatores que contribuem para o esgotamento mental, um problema que pode levar ao desenvolvimento de transtornos mentais, incluindo a depressão, ansiedade e, em casos extremos, ao suicídio.

Quadros de depressão e ansiedade são transtornos particularmente muito comuns, chegando até a 30% em alguns estudos populacionais. Desde novembro de 2023, são consideradas potencialmente doenças ocupacionais.

Trabalho e cuidados com a saúde mental dos trabalhadores

O trabalho na vida de uma pessoa é mais do que uma simples fonte de renda; ele é sinônimo de crescimento profissional, possibilita a construção de objetivos e a realização deles. Por meio do trabalho, desenvolvemos habilidades, adquirimos conhecimentos e enfrentamos desafios que nos impulsionam a evoluir continuamente. Além disso, trabalhar é também criar e transformar a nossa própria história.

A terceira maior causa de afastamentos por auxílio-doença acidentário, segundo dados da Previdência Social, está relacionada aos transtornos mentais. A Norma Regulamentadora – NR introduziu a identificação e gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. 

Qual é a importância do setembro amarelo na conscientização sobre a saúde mental no ambiente de trabalho?

No campo do trabalho, temos uma discussão que precisa avançar muito. Ao longo da pandemia vimos algumas categorias profissionais se tornarem mais vulneráveis ao suicídio, como as forças de segurança. Vimos também que alguns elementos comuns a várias categorias, como precarização de vínculos, também estão associados a sofrimento mental. Um conjunto de transformações contemporâneas no mundo do trabalho, como a apologia ao empreendedorismo, fragilização do movimento sindical, uberização do trabalho tendem a vulnerabilizar a saúde mental do trabalhador. Desta forma, achamos muito importante a visibilidade dada a este tema em setembro para promovermos o debate entre as mudanças no mundo do trabalho, prevenção e suicídio.

Como o estresse e a pressão no trabalho podem contribuir para o desenvolvimento de problemas de saúde mental entre os trabalhadores?

Existem várias evidências epidemiológicas de que situações de pressão, vulnerabilização de vínculo de trabalho, assim como pouco envolvimento do trabalhador em decisões que envolvem sua própria atividade estão relacionadas a mais sofrimento mental. Há situações de sofrimento que são específicas de cada atividade, como exposição à violência com pessoas que trabalham na área da segurança. Entretanto, algumas outras, como baixos salários, carga horária excessiva, assédio e conflitos no trabalho, são situações geradoras de sofrimento em qualquer atividade.

De que forma as empresas podem promover um ambiente de trabalho que priorize a saúde mental dos funcionários?

É muito importante afirmar que boas condições de ambiente de trabalho não substituem a necessidade de se ter boas condições estruturais de trabalho. Isto implica dizer que um ambiente de trabalho climatizado não substitui uma vinculação precária, o fornecimento de alimentos em local de trabalho não substitui uma boa remuneração com a qual o trabalhador pode alimentar bem a si e a sua família. Uma empresa que oferece um aplicativo de cuidados psicológicos aos trabalhadores pode ter ainda assim um ambiente de trabalho autoritário e abusivo e com muito sofrimento mental.